Atrás do muro
havia cinema

Betch Cleinman

Utopia e cotidiano
Ralf Schenk

The murderers are
among us

Ralf Schenk


O Muro de Berlim caiu há 20 anos. Começa a cair agora o Muro de Silêncio em torno do tesouro cinematográfico da Deutsche Film AG (DEFA), produtora de cinema estatal da extinta Alemanha Oriental. Fundada em 17 de maio de 1946, três anos antes da criação da República Democrática Alemã (RDA), ela desapareceria em 1992, três anos após a queda do Muro de Berlim em 9 de novembro de 1989. Os embates ideológicos da Guerra Fria e as versões vencedoras da Reunificação das duas Alemanhas soterraram 46 anos de sua existência. Durante esse tempo, foi produzida uma coleção de filmes, composta de 750 longas metragens, 200 filmes de animação e de mais de 3.000 documentários.

Para dar conta de tamanha produção, a defa possuía vários estúdios: um para longas-metragens, outro para documentários e um terceiro para filmes de animação. Com a reunificação alemã, em 3 de outubro de 1990, foi iniciado um processo de privatização das empresas em mãos do Estado. Esse foi o caso dos estúdios Babelsberg que foram vendidos e passaram a ser apenas espaços de aluguel e nessa condição foram contratados por Quentin Tarantino para rodar seu último filme, Inglourious Basterds. Com a privatização, esses estúdios deixaram de participar de um projeto de cinema integrado.

Entre os muros de berlim e o de silêncio
O Ocidente via a República Democrática Alemã como um país cinzento em que predominavam a melancolia, o conformismo intelectual e um tédio incomensurável. Durante a Guerra Fria, as produções oriundas da estatal DEFA eram suspeitas de serem desprovidas de autonomia em relação ao Estado e ao partido único que o dirigia. Esta desconfiança fez com que elas se mantivessem praticamente ausentes do mercado internacional, destinadas sobretudo ao público interno.

A DEFA, inspirando-se nas melhores intenções democráticas e antifascistas visava originalmente unir a produção cinematográfica do país dividido. Contou em sua fundação com a participação de funcionários soviéticos dedicados à cultura. Eles sustentavam a ideia de que seus filmes deveriam contribuir para ajudar os alemães a se libertarem do nazismo e do fascismo e enfrentar as questões da reconstrução do país. Em 1953, passou às mãos do Estado, tornando-se a única companhia de cinema da RDA. A partir de 1965, a intensificação da Guerra Fria e a crise econômica que atravessava o país, abriram espaço para que o partido único SED exercesse uma censura da sua produção. Foi acirrada, então, a disputa entre burocratas e artistas, entre diferentes concepções ideológicas e estéticas, uns tentando impor, outros, driblando as diretrizes. Muitas das críticas giravam em torno do fato de apresentarem semelhanças estéticas com o emergente cinema europeu da época, considerado por demais pessimista e impregnado pelo típico individualismo ocidental. Alguns filmes foram proibidos e só saíram das gavetas após a queda do regime.

Durante os anos 1960, no entanto, o cinema da Alemanha Oriental ocupou uma posição intermediária entre as cinematografias da Europa Ocidental e do Leste Europeu. Alguns cineastas sofreram influências visíveis da Nouvelle Vague e do British New Cinema. Já outros diretores se inspiraram no russo Andrei Tarkovski e na nova geração de cineastas tchecos e poloneses, como Andrzej Wajda e Milos Forman.

Wolfgang Kolhaase, um dos principais roteiristas da DEFA e um dos poucos que conseguiram um emprego estável no Ocidente depois de 1990, relata que “dinheiro não era o principal objetivo e não tinha o mesmo significado que em Hollywoood. Fazíamos filmes como uma tentativa para definir uma sociedade em que a justiça e não o dinheiro fosse o valor principal. Houve problemas, como a censura. Mas qual o país que lhe dá dinheiro para fazer um filme e não impõe condições para a sua realização?”

Entre as películas a serem exibidas encontra-se Os assassinos estão entre nós (1946), primeiro filme alemão do pós-guerra, e que tinha o projeto de se opor aos filmes de propaganda nazistas feitos antes da derrota para os aliados. Com imagens de inspiração nitidamente expressionistas, o filme resgata essa estética condenada e mal vista durante a hegemonia do nacional-socialismo. Também será projetado o último filme produzido pela DEFA, Os arquitetos (1990). que trata da desilusão política de jovens ante as imposições do poder da época. Em Quem ama a terra, encontramos imagens de uma juventude progressista antiimperialista, expressões de um tempo em que a igualdade era uma aspiração maior, e o coletivo, um dos protagonistas e não mero figurante silencioso e desprezado.

Na contemporaneidade, a informação percorre o planeta em velocidade cada vez maior, de forma quase instantânea. É, portanto, no mínimo curioso existir uma filmografia tão extensa e variada que permanece intacta aos olhos dos espectadores. Atrás do muro havia cinema é uma oportunidade de mostrar no Brasil esta produção, estas experiências estéticas, políticas e humanas. Esta descoberta permitirá a análise e o entendimento não apenas destas obras como também dos fatores históricos por detrás de sua criação e de seu esquecimento.

Vivemos no início do século XXI em sociedades dominadas pela tirania do dinheiro e da mercadoria, estruturadas pelo “fascismo de consumo” (conceito pasoliniano). Ver, então, esses filmes a partir dos valores e preconceitos da Guerra Fria, ainda bem vivos entre nós, sem levar em conta essa realidade, é deixar de aprender com uma filmografia que se caracteriza por sua temática antifascista, é não desenvolver um olhar crítico. É não estar atento à observação do filósofo Alain Badiou de que a “vitória da revolução contém a semente da repetição, da restauração” e que, portanto, os vencedores poderão tornar-se conservadores, apesar das idéias emancipatórias que os moviam. Aventurar-se nos filmes da DEFA de olhos e peito aberto é deixar-se surpreender pela vida que nos é revelada, é estabelecer analogias entre as nossas ilusões perdidas e as deles. É reiterar o lugar do Cinema como território privilegiado de sonhos e utopias.

Abril de 2010